a origem do projeto

As primeiras produções da Leninha foram cortadas e costuradas pelos dois sócios fundadores da marca, Maria Antonia e Miguel. Desde aquele primeiro momento, a discussão sobre o que aconteceria com aquelas peças que estavam sendo produzidas, ao final de sua vida útil, esteve presente. O incômodo de colocar mais peças no mundo sem que existisse uma solução para as peças que ja existiam nos acompanha desde os primeiros dias da marca. Ao longo dos dois anos seguintes, continuamos pesquisando, fazendo ligações e buscando projetos que pudessem solucionar a falta de encaminhamento desses descartes.

Nossa ideia inicial, era sermos um ponto de coleta para essas peças sem destino e encaminhar esses descartes para algum parceiro responsável por essa reciclagem. A surpresa foi grande quando não achamos nenhuma iniciativa que se ocupasse em solucionar esse problema. No dia em que o Miguel ligou na Secretaria do Meio Ambiente da cidade de São Paulo e nos foi sugerido que incinerássemos ou jogássemos no lixo essas peças, ficou claro que deveríamos criar uma solução para o descarte de roupas íntimas.

Quando jogamos peças de roupa fora, a grande maioria vai parar em aterros sanitários e lixões, que são uma das maiores fontes de emissão de metano do mundo. Só em 2015, 100 bilhões de peças de roupas foram produzidas em todo planeta e 70% dessas foram para o aterro ou incineração ao final de sua vida útil. Nesse mesmo ano de 2015, 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis foram descartados em todo o mundo pela indústria da moda. Só em São Paulo, são gerados cerca de 63 toneladas de resíduos têxteis todos os dias. 

O que impossibilita a reciclagem de roupas de baixo é que, em sua maioria, são peças pequenas, delicadas e geralmente feitas a partir da mistura de mais de um tecido (como algodão e elastano, por exemplo). Outro ponto é que pelo fato das peças serem muito delicadas, se desmancham durante o processo de beneficiamento do tecido. A mistura de materiais é outro ponto que invibializa esse processo. Dessa forma, é impossível fazer com que uma calcinha ou um sutiã volte a ser um tecido para novas produções. 

A maioria das iniciativas de reciclagem de roupas íntimas que existe no mundo, vendem as calcinhas, cuecas e sutiãs usados para outras indústrias. Assim,  esses descartes são usados como matéria prima em revestimentos de carros ou em forro para carpetes. Muitas outras iniciativas focam na doação dessas peças. No entanto, essa ação continua sem solucionar o problema dessas peças ao final de sua vida útil. Depois de muito pesquisar, não encontramos nenhuma iniciativa de reciclagem de roupas que se responsabilizasse por todo o ciclo desse descarte, do começo ao fim.

Ao constatar isso, decidimos que seríamos responsáveis por esses descartes do começo ao fim e que, assim, mitigaríamos os impactos da nossa operação. A premissa do nosso projeto "reciclar para reinventar" é que agregamos valor ao que antes seria lixo e fomentamos pequenos núcleos econômicos. Dessa forma, os descartes ganham novas trajetórias e carregam as narrativas das pessoas envolvidas nos processos de produção.

Uma discussão importante é sobre a quantidade de iniciativas que existem pelo mundo que, na realidade, estão promovendo uma subclagem, que seria transformar materiais antes recicláveis em outro não reciclável. Um exemplo bastante presente no universo da moda é o tecido de algodão PET. O algodão é um material biodegradável e reciclável e o PET é um dos poucos plásticos com uma reciclagem efetiva. Segundo a Associação Brasileira da Indústria do PET – Abipet, a reciclagem de garrafas PET no Brasil é uma das mais avançadas do mundo. Para compor o fio desse novo tecido, o algodão é misturado ao plástico, tornando-se um híbrido que não pode ser reciclado nem biodegradado. Com isso em mente, estruturamos nosso projeto de forma a ter certeza que estaríamos causando impactos positivos com ele.

Nosso projeto consiste em transformar calcinhas, cuecas e sutiãs que não tinham destino em novos produtos que transmitem histórias e que terão um longo tempo de vida útil, sempre agregando valor ao que antes seria lixo. Além disso, seremos ponto de coleta de roupas de baixo em qualquer estado de conservação enquanto existirmos.  A reciclagem faz parte do nosso negócio. Todo o lucro obtido com as vendas desses produtos será reinvestido no projeto. Assim poderemos, em um futuro próximo, oferecer frete por nossa conta para receber os descartes de vocês, por exemplo.

Lançamos nosso projeto em maio de 2019 e, desde então, recebemos descarte de todo o Brasil.

O primeiro produto que desenvolvemos é uma pequena almofada que tem como recheio os descartes higienizados e picotados. Cada almofada carrega, em média, 35 peças. Essa almofada é costurada pelo coletivo Flor de Cabruêra, que trabalha com a reutilização de materiais por meio do upcycling. O coletivo fica na zona leste e a oficina é composta em sua maioria por mães. Dessa forma, seus horários de trabalho acompanham os horários das escolas, com pausa para buscarem seus filhos.

Ficamos muito satisfeito quando recebemos o primeiro protótipo: o resultado é uma almofada mais pesada, que lembra um futon. Decidimos que as almofadas deveriam carregar bordados. Parte importante da cultura do fazer manual nacional, o bordado possui dezenas de características e identidades por todo país. Foi assim que conhecemos o projeto Maria Maria dentro da ACTC - Casa do Coração. A Associação de Assistência à Criança e ao Adolescente Cardíacos e aos Transplantados do Coração, é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atende crianças e adolescentes portadores de doenças cardíacas graves, acompanhados de suas mães/acompanhantes, vindos de todo o Brasil e de países vizinhos, para tratamento nos principais centros médicos que atendam alta complexidade. Todos recebem a assistência que necessitam durante o tempo em que permanecem em São Paulo para realização de cirurgias e nos retornos periódicos para exames, consultas e reavaliação médica.

O projeto Maria Maria, dentro da ACTC, busca aproximar as mães que acompanham seus filhos, dos fazeres manuais por meio de atividades pedagógicas e interações em grupo. Os bordados que nascem a partir do projeto são vendidos e ajudam as mães durante o período que estão em São Paulo acompanhando os filhos em tratamento. 

Depois de muitas conversas, idas à associação (pré-pandemia), chegamos a um consenso junto às mães do que seriam os bordados das almofadas: um tema livre, que viesse do momento e da situação de cada uma. Para isso, fizemos uma oficina de criatividade com uma convidada da Leninha, a artista plástica Marina Vitolo, que propôs às mães a elaboração de um casulo em argila e uma conversa sobre o signficado desse casulo para cada uma. O resultado é lindo, potente e emocionante. As almofadas devem estar à venda na loja da Leninha a partir do começo de 2021.