A Leninha é a minha avó. Mas, antes de ser a minha avó, se formou em filosofia; trabalhou; deu aula; casou; teve duas filhas; foi avó de três netos; bisavó de dois; fez os melhores bolos de qualquer aniversário; foi melhor amiga das suas três irmãs, diria que do seu pai e da sua mãe também. Ela é minha amiga; amiga do taxista do ponto em frente à casa dela que manda Whatsapp na noite de Natal; é amiga do podólogo, que também atende craques do futebol e desabafa as angústias da paternidade com ela; é amiga do cara da Cobal que leva todas as compras para que ela não carregue peso, e no dia que ele faltou tiveram que ligar para minha avó porque só ele sabia o seu endereço; tem piadas internas com as cuidadoras do meu avô; é amiga do farmacêutico que traz diariamente uma sacolinha de novas aquisições feitas pelo telefone para ela; se você quer cortar o cabelo no melhor lugar do Rio, basta citar Maria Helena na hora de marcar, um horário em três semanas acaba virando um “você pode em 30 minutos?”; conhece e é conhecida com carinho pelo Humaitá inteiro, tenho a sensação de que todo mundo tem algum segredo ou confissão muito bem guardado com ela. Além disso, minha avó sempre teve as melhores histórias, suas histórias também eram suas amigas e logo minhas também, porque me sinto completamente dona e co-criadora de todas elas, por mais que tenha inevitavelmente dormido uma hora ou outra. Minha avó também vira amiga das histórias dos outros, ela lembra todos os detalhes de contextualização que qualquer pessoa já comentou com ela, minhas amigas sempre acabaram virando as dela, minhas notas, minhas conquistas e minha marca, mesmo que ela não conheça a amiga ou não tenha vivido as situações.

Sobre a pergunta clássica: não, minha avó não costura, quem costurava era a minha bisavó que foi quem fez esse vestido de caipira que eu estou imponentemente e sem entender nada usando. Mas isso nunca a impediu de fazer as melhores barras urgentes em 15 minutos, pregar alguns botões ou fazer a minha mais pedida: pence nas calças que só ficam largas na cintura.

E sim, lingerie tem tudo a ver com a Leninha, minha avó tem a coleção de camisolas longas mais inacreditáveis do universo, de deixar qualquer noiva do século XIV chocada. Rendas, transparências, decotes, sedas, fendas, transpassados, laços, pregas e nas composições, cores e modelos mais chiques. Meu avô sempre trabalhou muito e chegava tarde em casa (quando chegava) e à noite era o momento que eles tinham para ficar juntos. Minha avó colocava as filhas na cama, muitas vezes ficava corrigindo provas, usando uma camisola longa, enquanto esperava meu avô. Muitas e muitas vezes ele não chegava e ela continuava tranquila, desconfio que era porque já tinha tido uma bela noite com ela mesma, para mim isso também sempre foi suficiente.

Hoje a minha avó cuida do meu avô, durante todos os dias e momentos da vida dos dois, sem parar. Meu avô abriu mão da memória dele, não sei se eu não faria o mesmo se tivesse tido um hardware externo sempre comigo. Mas durante todos esses dias, eles acordam juntos; tomam café da manhã com a mesa posta com tudo que se deve ter em um café da manhã; tomam banho um seguido do outro; vestem suas melhores roupas e usam seus melhores perfumes; usam sapatos (mesmo se não vão sair); na hora do almoço é servida a melhor refeição do Rio de Janeiro (com sobremesa, toalha e guardanapo de tecido); se ela precisa sair, sai como se lá fora fosse acontecer algo bom; a hora da novela vem acompanhada do melhor chocolate, o que mais derrete na boca. Ela vive se dividindo e desdobrando em cuidados. As pessoas incríveis têm esse problema, fazem com que todos a sua volta acabem ficando dependentes delas. E pessoas boas sofrem porque se sentem responsáveis por todos, minha avó sempre teve esses dois problemas.

Muitos falam que minha avó precisa sair mais de casa, eu só acho que mais pessoas deveriam conviver com ela e viver como ela.